O que explica o fenômeno de Cocal dos Alves na Obmep?

JC e-mail 4469, de 03 de Abril de 2012.

Alunos de Cocal dos Alves  (PI) lideram o ranking de medalhas de ouro da Obmep proporcionalmente em  número de habitantes. A tendência é seguida por estudantes de Viçosa (MG),  Quixaba (PE) e, lentamente, por alunos de escolas rurais.

Força de vontade, dedicação de professores e comprometimento de alunos       com os estudos. Eis alguns dos motivos que explicam o fenômeno em Cocal       dos Alves, uma cidadezinha piauiense com 5,2 mil habitantes, a maioria da       zona rural, e que possui alunos recordistas de medalha de ouro na       Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep).

 “Não existe milagre. Talvez o resultado seja explicado pela cobrança e       dedicação de professores, combinadas com o interesse dos alunos pelos       estudos”, responde o professor Antonio Cardoso do Amaral, 32 anos, ao       explicar a receita do conhecimento matemático dos alunos cocalalvenses que       acumulam 10 medalhas de ouro desde o início da Obmep, em 2005.

 Amaral é considerado o mentor de alunos campeões que saem das escolas       Teotônio Ferreira (municipal), e Augustinho Brandão, única escola estadual       de ensino médio da cidade, das quais ele é professor. Situada a 262       quilômetros da capital Teresina, a cidade tem a agricultura como principal       atividade econômica e nem sequer possui campus universitário. O município       possui 20 escolas públicas, incluindo a estadual, número, porém,       considerado proporcional ao número de habitantes.

 Segundo Amaral, os estudantes cocalalvenses depositam na Educação a       expectativa de mudar de patamar financeiro, na tentativa de conquistar um       emprego com remuneração razoável. “Aqui a Educação é uma das alternativas       para crescer”, destaca Amaral, citando seu próprio exemplo.

 Historicamente, Piauí é um dos estados brasileiros mais pobres do País,       com o segundo maior índice de analfabetismo (23,4%), atrás apenas de  Alagoas (24,6%).

 Mesmo com os contrastes socioeconômicos, os alunos daquela cidade       conseguem concorrer em pé de igualdade com estudantes que moram nos       grandes centros urbanos, onde geralmente existe mais facilidade no acesso       ao conhecimento e à cultura de uma forma geral.

 Histórico das premiações – Desde a primeira edição da  Obmep, em 2005, até o ano passado, foram distribuídas 128 premiações aos       alunos cocalalvenses. Dessa totalidade, 10 são medalhas de ouro; o       restante se divide entre prata, bronze e menções honrosas, segundo       levantamento do Jornal da Ciência com base em dados da Obmep.

 Somente no ano passado, de um total de 25 premiações, esses alunos       receberam três prêmios na categoria ouro, um a menos em relação a 2010       (4). O resultado supera alunos de várias capitais brasileiras, dentre as quais, Macapá (AP), Boa Vista  (RR) e Rio Branco (AC). É o mesmo       número de medalhas de ouro conquistadas por alunos de capitais como  Joinville (SC).

 Modéstia à parte, Amaral afirma nunca ter sido “um bom” aluno de   matemática. Ciências e português, até então, eram suas áreas prediletas do       conhecimento. “Fui um aluno de capacidade mediana em matemática, nunca fui       atraído por essa disciplina, nela minhas notas nunca ficaram acima de       oito”, recorda Amaral, que concluiu o ensino fundamental em escola       filantrópica, o médio em escola pública e graduou-se em matemática em 2002       – com intuito de passar em concurso público – na Universidade Estadual de       Parnaíba, a mais próxima de Cocal dos Alves. Amaral se especializou em       matemática, na mesma instituição, e este ano ingressou no mestrado pelo       programa Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat),       na Universidade Federal do Piauí (UFPI).

 “Talvez a minha dificuldade [de entender matemática] tenha me estimulado a correr atrás do conhecimento. Na faculdade me empolguei pela       disciplina e depois procurei contribuir de alguma forma com o que       aprendi”, sentencia o professor.

 Infraestrutura – Apesar de problemas socioeconômicos  de Cocal dos Alves, Amaral disse que houve uma melhora significativa na       região nos últimos sete anos, por exemplo, nas áreas de transporte público       e de energia elétrica, ingredientes indispensáveis para acessar o       conhecimento. Essas iniciativas coincidem com o aumento do número de       estudantes cocalalvenses nas premiações da Obmep. Em 2005, por exemplo, no       total foram 17 alunos premiados, mas nenhuma medalha de ouro.

 Pelo fato de grande parte dos alunos das duas escolas de Cocal dos       Alves ser da zona rural, de povoados e distritos, Amaral informa que os       alunos tinham muita dificuldade para chegar às escolas, principalmente nos       fins de semana, quando são realizadas aulas de reforço de matemática (de       abril a outubro) para as olimpíadas de matemática.

 Avaliação de especialistas – Claudio Landim,       diretor-adjunto do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada       (Impa), destaca que o desempenho de Cocal dos Alves é reflexo de       iniciativas locais de professores e diretores “que fazem com que o       desempenho dos alunos seja igual ao de alunos que frequentam as melhores”       escolas do País. “Os dados da Obmep mostram ser possível ter escolas       públicas de qualidade no Brasil. E a premiação de uns estimula outros       estudantes”, observa Landim, também coordenador-geral da Obmep, Claudio       Landim.

 Ele cita também o exemplo de alunos de Quixaba, uma cidade turística do       sertão de Pernambuco, com 6,8 mil de habitantes, aproximadamente. Em sete       anos os alunos quixabenses acumulam sete medalhas de ouro, das quais duas       em 2010 e uma no ano passado.

 Tendência nacional – Outras escolas de cidades do       interior do País esboçam destaque na premiação ouro nas tabelas da Obmep,       como Viçosa (MG) e Sertãozinho (SP). Situada em Minas Gerais, Viçosa, com       72 mil moradores, tem forte tradição educacional e acumula 36 medalhas de       ouro de 2005 a 2011 de uma totalidade de 302 premiações (incluindo menções       honrosas).

 No ano passado, alunos de Viçosa receberam 39 prêmios, sendo quatro na       categoria ouro, e cinco em 2010. Os anos áureos dos alunos do município       mineiro ocorreram principalmente em 2009, quando eles receberam nove       medalhas de ouro. Outro exemplo é Sertãozinho, com 110 mil habitantes, em       São Paulo, o estado mais rico do País, onde os estudantes reúnem sete  medalhas de ouro de 2005 a 2011.

 Cresce participação de alunos de escolas rurais – Além       de alunos de cidades do interior do País, estudantes de escolas rurais,       situadas em povoados e distritos de difícil acesso, começam a participar       da disputadíssima olimpíada de matemática, resultado considerado positivo       pelo diretor-adjunto do Impa, Landim.

 Segundo o especialista, os investimentos aplicados na Obmep (premiação       e gastos com passagens para alunos e professores, por exemplo) somam R$ 34       milhões anuais, o equivalente a um gasto inferior a R$ 2 por aluno. O       impacto da Obmep, criada para identificar o potencial dos alunos do País,       será observado no mercado de trabalho futuramente, proporcionando       qualificação de mão de obra, conforme avalia Landim. Todos os alunos       vencedores da olimpíada de matemática são contemplados com uma bolsa de       iniciação cientifica pelo Programa de Iniciação Científica Junior       (PIC-Obmep) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

 Landim destaca que hoje 98% dos municípios participam do concurso.       Segundo a Obmep, no ano passado 12,7 mil alunos de escolas rurais se       inscreveram nas olimpíadas de matemática. Desse total, 1.021 foram       premiados. O número teve um ligeiro acréscimo na comparação com 2010,       quando as inscrições desse público atingiram 12,547 mil alunos. Desse       total, 895 estudantes conquistaram alguma premiação.

 Destaque em Alagoas – Na lista de premiados de alunos       de zonas rurais, a Obmep já identifica campeões de medalhas de ouro. Um       exemplo é Indiana Jhones dos Santos, da Escola Municipal de Educação       Básica General Góes Monteiro, em Poxim, distrito de Coruripe, situada em       Alagoas, que recebeu o prêmio de ouro no ano passado.

 A premiação desses alunos nas olimpíadas de matemática ainda é pequena,       representando menos de 1% de toda a premiação concedida aos alunos dos       estados brasileiros, que somou 33,202 mil prêmios distribuídos em 2011,       quando foram inscritos 17,4 milhões de alunos. Foram 500 premiações em       medalha de ouro no total nacional.

 (Viviane Monteiro – Jornal da Ciência)

 Mais sobre o assunto: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=81811

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